De quando em quando, apartas a vida da sua memória. Atravessas a ponte e finges que não conheces o rio, nem tão pouco que vem de ti a direcção, a imperfeita e sempre apaixonante desordem da cidade caída nos teus olhos, noite dentro.
De quando em quando julgas-te morto e só sofres por acordares a seguir com tudo mudado, sem que ali tenhas estado, como uma árvore, testemunhando que o mundo poderá acabar um dia, porém, com a tua implícita, genuína e sempre dolorosa permissão. De quando em quando julgas-te morto e só entristeces por te roubarem dos olhos esse sempre aparente fim das tuas coisas.
Guarda-te assim. Lá fora choveu o dia todo. O teu corpo está húmido como o mundo. Anoitece. Só as palavras são passíveis de não morrer com o tempo. Vai defintivamente para onde te mandar o destino ou a história que mais amares. A mim, ninguém me roubará a chuva. Adeus.
Segurava o papagaio junto ao mar e continha nessa linha, entre o céu e o oceano, a noção das viagens que não tinha feito, as coisas que não tinha dito, as pessoas que ainda não conhecera.
Como na vida, o vento foi mudando de rota e abrandando a força. O que restou, foi sobretudo o que se não percebeu no trajecto muito rápido da queda e todo o tempo que, não conseguindo voar, ainda em nós dá a sensação de voo, a sensação de continuar céu adiante, mar adentro.
O que resta mesmo do que acaba, é sobretudo aquilo que continua, muito depois de alguém deixar de visualizar o que é evidente e colorido, leve e palpável, com um nome e um lugar de todos percebido.
O que resta mesmo do que acaba é o que nunca existiu, mas que aí teve um breve início, para um longo fim.
No final do jantar, junto à cadeira de baloiço, relembrei o avô e a minha infância na casa do Largo e na loja da avenida. Lembro-me que a escrivaninha era muito alta, que raramente consegui ver o que estava em cima, à excepção do telefone preto, muito pesado, que se via cá de baixo. Nessa altura, saíamos de casa por volta das dez da noite para telefonar aos primos brasileiros. Primeiro ligava-se para a Marconi e uma operadora fazia uma série de perguntas, ao que, passados uns instantes, lá nos ligava de volta para passar a chamada com os primos do outro lado da linha. Eram momentos empolgantes. É curioso como tudo muda em tão pouco tempo.
Neste período de memórias, pós jantar, lembrei-me também do valor que os lugares têm e deparei-me com um sentimento novo em relação a esta minha casa, que confesso, nunca tive. Reparei que todos aqueles que fazem parte do meu grupo de entes amados e que já cá não estão, à excepção do avô, tinham estado nesta casa, e que com cada um deles se viveram histórias que tiveram estas paredes por testemunhas.
Os lugares e os objectos, à medida que vamos engrossando o nosso historial de perdas, ganham um novo valor, tendo cada vez mais a noção de que a riqueza é um conceito muito direccionado para o intangível. A escrivaninha do avô, na Loja, ainda hoje é uma das melhores definições daquilo que se sente face ao mistério e, contudo, começou por ser apenas uma escrivaninha em madeira, destinada à contabilidade e à arrumação da correspondência. Aí se vê como as coisas valorizam.
Muitas são as sombras. Poucas as vozes que ainda correspondem ao imaginário do que é desaparecido e eterno. Chegas perto da porta e perguntas:
- Quanto tempo demorará até chegar de novo à expressão cálida dos primeiros dias? Quanta sabedoria será necessária? Quantos anos teremos de enfrentar para sermos de novo a perfeita e genuína face da infância?
Se ainda aí estiveres, não respondas. A vida é mesmo assim, uma casa muito grande, cheia de portas e varandas e janelas e terraços por onde fugimos, por onde perseguimos a inviolável alegria de termos sido apenas a nossa voz, a voz dos que amamos e um mundo inteiro que nos parecia conhecer tão bem, tão em paz, tão a seguir a cadência natural das horas, umas atrás das outras, limitando as fronteiras do dia.
As horas, umas atrás das outras tão definidas, tão longas, tão a parecer não acabarem nunca. É isso a infância, quando solitária. É assim a infância que ainda hoje vivo e que tanto amo.
O Isaac e a Ângela chegaram de Macau e trouxeram-me um ábaco antigo, que foi pertença do pai da Ângela desde há muitos anos. Os objectos são relíquias quando para além de si mesmos transportam histórias e pessoas, continentes e esperanças, memórias e outras tantas finitudes. O ábaco veio de Macau ajudar-me a contar os passos que ainda não dei e, ao olhá-lo, agora à noite, ganho consciência do que falta para que em mim o novo e o autêntico possuam a força suficiente para que um dia, se oferecidos, alguém os guarde e com eles um certo murmúrio faça sorrir o mais amado desconhecido.
Ao Francisco tocou-lhe um papagaio. Ao fim da tarde, deste dia de todos os Santos, fomos para os montes de Pedraído lançar o papagaio como se, nele e nos sorrisos e gargalhadas que demos, soltássemos todos aqueles que nos fizeram, ao longo vida, sorrir ou experimentar o lado mais alto que a liberdade conhece. Com o papagaio do Francisco, no céu de Pedraído, consegui a mais bela e mais próxima oração deste dia: afinal um papagaio ao vento sempre fica mais perto do céu e está agarrado a nós por um fio, como por um fio estamos tantas vezes agarrados ao que já não temos ou ao que, desconhecendo, nos solta como se houvesse sempre um pedaço de vento pronto a tirar-nos do chão.
Quando tudo parece avistável da janela interior que carregamos, quando existe no ar um calor sereno e inteiro que aponta um caminho e uma distância que se julga conhecer, porém não é mais do que uma emoção indescoberta e impossível. Quando debaixo da luz se guarda uma outra pele e uma história muito longa, onde se guardam lugares infinitos para o que ainda não sabemos e para o que ainda não veio, quando me sinto assim, tal e qual um animal em recolhimento no momento de fechar o dia, salto como quem voa para a terra onde construo um barco com que, um dia, atravessarei a rota estreita da felicidade e chegarei a desvendar o sabor e a distância de um último cais.
A discussão na TV sobre o referendo relativo à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, até às dez semanas, foi um desaire. Estavam quase todos a fugir às questões centrais que a todos se coloca.
Ponto 1- a prática do aborto é traumática, indesejável e nociva. Ponto 2- ninguém de bom senso aceita que esta prática seja levada a cabo de ânimo leve e sem que constitua um efectivo último recurso a que a mulher acede. Ponto 3- Ninguém discordará da intervenção da sociedade civil e do Estado no sentido de se criarem condições às mulheres para poderem ter os seus filhos, em vez de abortar. Estes são os pontos onde julgo estarmos todos de acordo. Contudo o problema é bem mais difícil de resolver. O que se questiona é: o que fazer àquelas mulheres que engravidaram acidentalmente, que já equacionaram todas as hipóteses de criação do filho, ouvindo estruturas de apoio familiar ou delas tendo conhecimento, reflectindo em família sobre o assunto, e que, mesmo assim, continuam a entender que não têm condições para levar por diante a gravidez, tendo absoluta consciência do negativo e traumático que essa decisão encerra? Resposta: se tiverem condições económicas fazem-no no estrangeiro em clínicas autorizadas, se não tiverem abortam clandestinamente, arriscando a vida e, com ela, o sustento do resto dos filhos que eventualmente possam ter.
A questão não está na decisão, mas no que fazer após a decisão. Esta alteração da Lei vem ajudar quem encara séria e dramaticamente o problema e não quem não pensa e faz do aborto uma técnica de planeamento. Pois para estes últimos o aborto acontecerá de igual modo, com Lei ou sem ela, uma vez que a ignorância e a cultura em que vivem assim o permitem.
O que está em causa no referendo é a despenalização de quem, em consciência e última instância, optou por abortar e para fazê-lo terá de dispor de condições de higiene e saúde para tal, independentemente do seu estatuto económico.
De acordo estaremos, também todos, que o que faz mesmo falta é trabalhar na prevenção, na educação sexual e no apoio à maternidade, contudo aquilo para que somos chamados a decidir é: e quando isto não existe? E quando isto não chega? Ignoramos e prendemos? Penso que não.
A questão do aborto tem duas faces, a séria e a desinformada, é para a sua face séria que esta alteração à Lei se destina e não para aqueles que, com lei ou sem ela, têm do aborto uma visão que quase unanimemente combatemos, e sem hesitações consideramos deplorável.
A tantos níveis declarámos já a morte às coisas. Contudo, quanto de tudo isso voltou? E quanto a tudo isso conseguimos regressar depois de violenta e decididamente termos feito muito para que terminasse definitivamente?
Esta tarde havemos de nos cruzar na fatal caminhada do tempo, havemos de ser outros e sermos antigos. Quando nos cruzarmos perguntar-te-ei pela distância e saberei que a resposta estará mais em mim, pois fui eu quem envelheceu e foste tu quem antiquou a face e ergueu a muralha, pedra a pedra, sol a sol, oceano a oceano, nunca mais a nunca mais.
Esta tarde havemos de nos cruzar e serei eu a dizer o quanto morro de saudades por seres tu essa minha parte indomável e eterna, a que foi morrendo antes de mim e a que ainda mantém a minha parte viva tão madura quanto a parte que foi desaparecendo. É essa que, contudo, diariamente percorre o jardim mais secreto da paz e do amor que sempre reservo para os dias continuarem possíveis, para os dias continuarem tão nossos como em qualquer outra idade por que passámos.
Quando nos olhos da tua outra idade encontro a súbita existência, o súbito espanto, solto as amarras e desço ao cais do dia, a par da aragem e da escuridão doce de quando entardece.
Não há barco que nos sustente, no cimo das águas, todas as lágrimas sobre o que antes de ser tocável, foi violável já pelo coração.
Carta 11 Encontra-me. Regresso à escrita. À escrita das cartas que chegarás a receber no coração mais puro da humanidade. Não há outro endereço senão o coração dos outros. Revisita-o e procura-nos assim que o dia termine sobre as coisas que pesam, sobre as existências interrompidas e as faces indesejadas. Quando passares por um coração estranho pára-te nele e procura. Demora-te aí, da forma mais invisível que conheceres. Canta para dentro uma canção. Tenta saber quem sou. Tenta lembrar-te do que nunca soubeste e verás como tudo é muito claro, como afinal, nada é tão longínquo e tão inacessível assim. Na vida, muito mais importante do que ter, é saber guardar. Mesmo aquilo que se não possui, sobretudo isso. A pouco e pouco, construirás um mapa de regresso e os passos serão tão leves e tão firmes que tudo em volta te parecerá uma enorme e fabulosa mentira. Como eu regresso à escrita, regressa tu aos corações e procura. Não há melhor ciência, não há melhor passado, nem futuro.
Aos poucos, e após muita insistência, os dias começam a mostrar uma certa unidade, fazendo-me notar que vamos sendo cada vez mais aqueles que seguem um rumo com vista ao amor entre os viventes.
Hoje, pela tarde encontrei uns jovens que traziam no olhar uma alegria como já não via há muito tempo. Acabavam em Guimarães a «semana por um mundo unido».
Sossegado com aquele pedaço de mundo, apeteceu-me, então, começar um pouco de descanso e fugir com essa felicidade pelas cidades que conheço e amo, de modo a ficar assim, como um animal só, agasalhado do frio numa qualquer caverna, num qualquer esconderijo da memória onde o espanto e alegria até aromas e sabores costumavam ter.
Apresentei o livro de Maria Elisa Pinheiro, «Manta de Retalhos - percurso de uma vida», no passado Sábado, em Viseu. Uma sessão partcipadíssima e de uma intensidade irrepetível. Nunca vi uma sala cheia de tanta gente em comunhão, nunca estive numa apresentação com a ideia de que estávamos perante um momento de profunda humanidade.
Andámos em torno das memórias de Maria Elisa, às voltas com as nossas, às voltas com tudo o que fomos aprendendo com a vida. Ficámos todos com uma noção muito clara e palpável do quanto a memória é o nosso mairo tesouro, a forma única de não morrermos, de sermos muito maiores e mais extensos do que aquilo que dita a nossa materialidade. Uma tarde assim é uma oração, no que elas têm de evocativo e de genuíno, uma coisa inventada com o melhor de nós para o melhor de Deus.
Chegaram os dias em que as minhas árvores se vestem de fogo e eu de luz branda com um sorriso interior, como se ambos nos propuséssemos saber tudo sobre o amor e a forma como com isso vamos resistindo mundo adiante, idade dentro.